Despedida
A oficina de outubro – 06/10/09
Penitenciária Regional de Presidente Venceslau, cela 42 do 1º raio, julho, 30/72
Mesmo que o detento saia disposto a trabalhar e jamais retornar ao crime, ele enfrentará aí fora, por causa de seu passado, toda sorte de dificuldades. Por incrível que pareça, não são todas as penitenciárias que permitem ao preso retornar à liberdade de posse de seus documentos de identificação (neste ponto esta aqui é uma exceção). O sujeito sai e poucos dias depois é preso como vadio por uma ronda policial, pois ninguém ignora como é demorado se obter qualquer papel no Brasil. A coisa chega a tal ponto, que conheci vários presos correcionais condenados ao crime porque não conseguiram emprego por falta de documentos e a polícia não lhes fornecia documentos enquanto não provassem que estavam trabalhando. É muito difícil, com a excessiva oferta e o reduzido valor da mão-de-obra no Brasil, um empregador contratar um ex-presidiário. Quando o faz é porque este possui "pistolão", alguém conhecido que se responsabilize por ele. Na Penitenciária de São Paulo, o SENAI fornece diploma sem constar onde foi feito o curso, tantas são as prevenções contra o ex-presidiário. Muitos patrões, quando descobrem o empregado que passou por uma cadeia, tratam de despedi-lo. Foi o caso de José Gilberto, que estava muito bem como funcionário de um famoso clube paulista, até que houve um roubo lá dentro. Incluído na primeira relação de suspeitos, nada foi provado contra ele, mas mesmo assim foi despedido com a clássica frase: "Vá brigar pelos seus direitos na Justiça do Trabalho". Como evitar a revolta e o retorno ao crime de uma pessoa dessas, sobretudo quando não lhe resta outro meio de sobrevivência?
Um preso pode se recuperar na prisão, mas é muito difícil ele ser reassumido pela sociedade. A começar pela própria família. Quantos não são abandonados pela mulher, incapaz de suportar a castidade involuntária? Dentro do sistema penitenciário atual os critérios de recuperação podem ser facilmente burlados. Trabalhar, ter bom comportamento, demonstrar arrependimento, são atitudes que o preso pode assumir com o objetivo de encurtar sua pena e regressar à rua para cometer novos crimes. Por outro lado, ele pode estar realmente recuperado, envergonhado de seu passado, disposto a adaptar-se à engrenagem social, mas ser tido dentro da penitenciária como elementos perigosos e indisciplinado pelo simples fato de evitar conversas com os guardas ou reclamar das condições carcerárias.
Não são muitas as pessoas, entre juristas, juízes e advogados, que consideram aceitáveis para os nossos tempos os sistemas processual, penal e penitenciário brasileiros. Um homem condenado a vinte anos pode estar recuperado na metade da pena, e degenerado no momento em que a lei determina sua volta à liberdade. A falta de verba obriga toda sorte de improvisações no cárcere e impede que sejam criadas condições mínimas de reeducação dos presos. Os regulamentos são arcaicos e só servem para alimentar ressentimentos e ódios. Não há uma pedagogia carcerária definida em diretrizes básicas. O emperramento burocrático é tal que a filosofia predominante é a do "deixe como está para ver como é que fica".
Qual seria, na minha opinião de presidiário, a solução mínima? É quase inútil por remendo novo em pano velho. São as causas sociais do crime que precisam ser atacadas. De nada adianta construir cadeias. Deve-se edificar uma sociedade capaz de erradicar os focos geradores de criminalidade, como a miséria, o analfabetismo, o trabalho mal remunerado, o desnível entre oferta e procura de mão-de-obra, etc. Entretanto, enquanto perdura a longa agonia de nossa decadente sociedade, uma solução mínima para o regime penitenciário exigiria verbas assombrosas e pessoal altamente especializado – se o objetivo for realmente ajudar esses homens aqui a se reeducarem, segundo o padrão social vigente. Isto significa possibilidade de o detento reeducar-se na liberdade, pela eliminação de todos os fatores coibitivos (rompimento de seus bloqueios afetivos, psíquicos, intelectuais e espirituais) e oferecimento de condições par o cultivo e expansão de suas potencialidades humanas. Portanto, soltar o detento na rua não seria a melhor solução mínima. Provavelmente significaria seu retorno aos focos de criminalidade. (...)
RESPOSTAS AO E-MAIL DO EDUCADOR ANÔNIMO
REFLEXÕES DE UM EDUCADOR ANÔNIMO - 01/10/09
Essas histórias que vc manda de vez em quando me fazem rir (monitores maus, técnicos(as) bonzinhos).
Acorda... a grande maioria desses jovens não tiveram oportunidade eu sei, contudo não é motivo para fazerem as atrocidades que fazem, fazem tudo porque têm a consciência de que nada lhes acontece.
Quando vc cita a falta de estrutura familiar sem dúvidas muitos de nós concordamos, em partes, mas eu gostaria que vc comentasse mesmo era sobre a realidade para esses adolescentes(criminozos), a consequência de seus atos, gostaria que os tratassem como deveriam ser tratados.
Para mudar é necessário investimentos na base de tudo isso.
Aqueles que estão presos(internados, cumprindo medida sócio-educativa(detesto esse nome) deveriam ser tratados como bandidos, aí sim eles pensariam bem antes de cometer outro crime, desculpe, ato infracional.
Pensa comigo: vc roubou um pão na padaria da esquina e ao chegar em casa sua mãe lhe falou assim: - filha vc não pode fazer isso, isso é feio, mas tudo bem estamos precisando mesmo... daqui a alguns dias vc repetirá a mesma delinquência ou não?????? te dou um doce se vc ADIVINHAR.
Acorda pra vida se põe de pé a verdade pra nós já amanheceu.( letras de uma música linda do Grupo Semeando)
TUDO COMEÇOU... por E.R.L.
Minha mãe foi embora e eu queria ir com ela, mas ela não levou nenhum dos seus filhos. Meu pai quando se separou da minha mãe passou um tempo bebendo que nem um pinguço, mas ele ajeitou uma mulher que era muito chata. Nem eu e nem os meus irmãos gostamos dela. Com o devido tempo, meu pai foi se descuidando de mim e eu arrumei várias brigas na escola sem meus pais saberem. Essas pessoas que eu arrumei briga eram envolvidas no crime.
Todos os dias quando eu estava saindo da escola eles estavam lá fora me esperando para me bater. Foi aí que eu conheci uns caras que também eram envolvidos no crime. Eu comecei a andar com eles e eles tinham várias armas e eu fui começando a andar com arma. Levava para casa sem meu pai saber. Quando meu pai foi perceber, já era tarde e eu já estava cometendo vários crimes. Minha mãe também ficou sabendo o que eu estava fazendo e ela e meu pai chegaram a um acordo. Eles iam me mandar para o Piauí. Eu não queria ir, mas fui.
Chegando lá, eu fiquei agoniado para voltar. Meu tio viu como eu estava agoniado e ele ligou rapidamente para o meu pai pedindo que ele mandasse o dinheiro para eu ir embora. Meu pai mandou o dinheiro.
Quando eu voltei para minha casa, só falei com meus irmãos e meu pai e já fui correndo pegar a arma com os meus colegas. Depois de uma semana que eu tinha voltado do Piauí, eu cometi um crime e logo em seguida eu fui preso. Fui para o CAJE e de lá eu fui para o CESAMI. Fiquei 45 dias e saí de semi liberdade. No mesmo dia que eu cheguei eu já saí fora para minha casa e depois comecei a andar com os meus colegas.
Passou 7 dias e eu fui preso de novo. Eu puxei mais 45 dias no CAJE. Quando eu tava todo alegre e doido pra ir pra rua aprontar mais, fui sentenciado. Fiquei com muita raiva depois que fui sentenciado.
Passei uns 15 dias no CAJE e fui transferido para inaugurar o CIAP. Eu fiquei com mais raiva e comecei a tocar fogo e xingar monitor. Quando eu cheguei no CIAP, duas técnicas me atendia e eu não dava muito certo com elas, mas elas eram gente boa. Elas me davam conselhos, pra ficar quieto pra sair logo desse lugar, mas eu não queria nem saber. Aí que eu atentava mais.
Eu já estava começando a ficar cansado de tanta bagunça e foi aí que eu mudei de técnicos. Veio um homem e uma mulher para me atender. No começo eu não achei certo ser atendido por um homem, mas depois eu fui trocando idéias com ele e vi que ele era gente boa. Ele começou a trabalhar comigo na intenção que eu pudesse mudar de vida e ele fez o que ninguém imaginava. Ele me fez refletir na vida e eu fui começando a conviver calmo, respeitando os monitores e meus colegas. Comecei a mudar meu comportamento. As pessoas daqui de dentro começaram a me olhar com outros olhos, mas quando os técnicos estavam começando a me ajudar a mudar meus pensamentos ruins, eles foram transferidos. Ele para o CIAGO e ela para o CAJE. Novamente vieram mais duas técnicas. Elas estão continuando o trabalho que os meus antigos técnicos estavam fazendo comigo. Elas também me ajudam muito aqui dentro agora.
Eu espero sair daqui e continuar com o pensamento de mudar da Samambaia e ajeitar um emprego, ter uma família, ter filhos e voltar a ter uma vida normal para que possa dar orgulho a minha família porque eu já fiz meus pais sofrerem demais.
Um pouco da minha vida – por A.J. (23/09/09)
Certo dia, quando entrei no banheiro da escola vi dois adolescentes cheirando cocaína. Um deles perguntou se eu queria cheirar e eu falei que não. Eles insistiram tanto que eu acabei cheirando. Foi aí que começou tudo. Com o passar do tempo eu comecei a traficar drogas e por causa dela eu vim parar onde estou hoje, no CIAP.
Por causa dessa droga eu comecei a fazer muita coisa ruim, mas essa internação me fez enxergar o mundo de maneira muito diferente. Enxergar um futuro muito melhor longe das drogas e da violência. Graças à Deus eu já penso em sair daqui só com um objetivo. Construir uma família, terminar meus estudos e falar para a sociedade que eu posso mudar minha vida radicalmente para melhor e ter tudo que eu quero trabalhando muito, sem precisar roubar ou traficar.
Você que está lendo isso agora, eu me arrependo muito de ter cheirado aquela cocaína lá no começo da história, mas a vida ensina por bem ou por mal. Porque estou nessa internação, quando eu peguei meu primeiro saidão, pessoas me julgavam porque estar aqui dentro é estar abaixo deles, mas eu pensei bem e falei que ninguém nasce bandido, ladrão ou traficante. Apenas desconhecem a linha divisória entre o real e o fantástico, criando ilusões, se arriscando no crime.
Quando um menor pega uma arma e vai roubar, é certo que não está estudando ou fazendo alguma coisa de proveito. A sua miséria permite que ele roube para não morrer de fome.
A elite também rouba e nem por isso eles são chamados de bandidos ou ladrões. Pelo contrário, são chamados de "Doutor". Este é meu ponto de vista.
Resultado da leitura da carta de Frei Betto - 15/09/09
Reflexões - por E.R.L.
Em 1992, final de setembro, no hospital, meu choro era motivo de sorriso pra minha mãe. Um sonho lindo, primeiro filho homem. Pra sociedade, um perigo recém nascido, discriminado por ser pobre.
Minha mãe, que trabalhava o mês inteiro por um mísero salário, acreditava nos meus sonhos.
Com apenas 12 anos, que tempo bom, eu fazia vários planos de ter uma família unida, filhos, um trabalho, fazer um curso. Mas com a devida falta de oportunidade, eu não realizei meus sonhos. Acabei cometendo crimes e fui preso. Hoje pago por um erro que cometi e acredito na possibilidade de que quando sair daqui posso voltar a lutar pelos sonhos que tenho desde os 12 anos e que ficaram parados durante todo o tempo em que pago pelos erros que cometi e que jamais saíram dos meus pensamentos.
